Archive for October, 2009

Beco Sem Saída

Tuesday, October 20th, 2009

 

Texto do Dr. Drauzio Varela

Nos quase dez anos desta coluna, leitor, nunca escrevi sobre política. Adotei essa conduta por reconhecer que há profissionais mais preparados para fazê-lo e por considerar que médicos envolvidos em educação na área de saúde pública devem ficar distantes das paixões partidárias.
No entanto, os últimos acontecimentos de Brasília foram tão desconcertantes e chocaram a nação de tal forma, que ignorá-los seria omissão. No trato da administração pública, chegamos a níveis de desfaçatez e de imoralidade assumida incompatíveis com os princípios éticos mais elementares.

Para os que ganham a vida com o suor do próprio rosto, é revoltante tomar consciência de que parte dos impostos recolhidos ao comprar um quilo de feijão é esbanjada, malversada ou simplesmente desapropriada pela corja de aproveitadores instalada há décadas na cúpula da hierarquia do poder.
Mais chocante, ainda, é a certeza de que os crimes cometidos por eles e seus asseclas ficarão impunes, por mais graves que sejam. Do brasileiro iletrado ao mais culto, todos nós temos consciência de que o rigor de nossas leis pune apenas os mais fracos. É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico parar na cadeia, diz o povo, com toda razão.

Uma noite, na antiga Casa de Detenção de São Paulo, ao fazer a distribuição de um gibi educativo sobre Aids, perguntei, à porta de um xadrez trancado, quantos estavam ali. Um rapaz de gorrinho de lã, curvado junto à pequena abertura da porta, respondeu que eram 17. Diante de minha surpresa por caberem tantos em espaço tão exíguo, começou a reclamar das condições em que viviam. Às tantas, apontou para a TV casualmente ligada no horário polí­tico, no fundo da cela, no qual discursava um candidato:
-Olha aí, senhor, dizem que esse homem levou 450 milhões de dólares. Se somar o que todos nós roubamos a vida inteira, os 7.000 presos da cadeia, não chega a 10% disso.

Essa realidade, que privilegia a impostura e perdoa antecipadamente os deslizes cometidos pelos que deveriam dar exemplo de patriotismo e de respeito às instituições, serve de pretexto para comportamentos predatórios (se eles se locupletam, por que não eu?), gera descrédito na democracia e, muito mais grave, a impressão distorcida de que todo político é mentiroso e ladrão.
Considerar que a classe inteira é formada por pessoas desonestas tem duas consequências trágicas: votar nos que “roubam, mas fazem” e afastar da política cidadãos que poderiam contribuir para o bem-estar da sociedade.

De que adianta documentar os crimes se os criminosos ficarão impunes e retornarão nas próximas eleições ungidos pela sobera nia do voto popular?

Como renovar a classe política num país em que quase dois terços da população não têm acesso à informação escrita, em que empresários financiam campanhas de indivíduos inescrupulosos, comprometidos apenas com os interesses de quem lhes deu dinheiro, e no qual as mulheres e os homens de bem se negam a disputar cargos eletivos, porque não querem ser confundidos com gente que não presta?

É evidente que os políticos brasileiros não são os únicos responsáveis pelo estado a que as coisas chegaram. Antes de tudo, porque muitos são honestos e bem-intencionados; depois, porque o clientelismo que os cerca é uma praga que nos aflige desde os tempos coloniais. Os que se aproximam dos políticos para pedir empregos públicos, nomeações para cargos estratégicos, favores em negócios com o governo ou para oferecer-lhes suborno, por acaso são mais dignos?

Esse é o beco sem saída em que nos encontramos: os partidos aceitam a candidatura de indivíduos desclassificados, os empresários financiam-lhes a campanha (muitas vezes com os assim chamados recursos não declaráveis), o eleitor vota neles porque “não faz diferença, já que todos são ladrões” ou porque podem conceder-lhe alguma vantagem pessoal, a Justiça não consegue nem sequer afastar do serviço público os que são flagrados com as mãos no cofre e, para completar a equação, as pessoas de bem querem distância da política.

A esperança está na prática da democracia. Se a Justiça não pune os que se apropriam dos bens públicos, a liberdade de imprensa é a arma que nos resta, a única que ainda os assusta.”

 

Ilha da Fantasia 2016

Saturday, October 10th, 2009

 

Não sei se estou me tornando anti-patriota ou um brasileiro fora dos padrões, mas não fiquei meio peocupado com a escolha do Rio de Janeiro para as Olimpíadas de 2016.

Não entendi tanta euforia popular, se para a maioria da população, tanto a Copa do Mundo, como as Olimpíadas que serão realizadas no Brasil, serão como se estivessem sendo realizadas no Japão, China, Espanha, pois o povo vai assistir essas competições do mesmo modo que assistiram às anteriores pela televisão. A única diferença é que alguns assistirão numa televisão de LCD de 32 polegadas compradas em vinte e quatro vezes. Ah, entendi sim, a elagria do povo, afinal vivemos em um país onde os politicos roubam, mas o que importa, desde que não mexam no carnaval e no futebol. Tudo bem. Dêem o pão e circo ao povo e tudo fica bem.

Ah, um consolo, aquela população mais pobre que mora no Rio de Janeiro poderá assistir a Maratona e ver de longe a competição de vela, isto é senão interditarem as ruas e as praias em nome da segurança. Também restará ao povo, o consolo de ver os grandes atletas dentro dos ônibus ou esperar por eles nos aeroportos, agora rezem para eles não saírem por outro local. Ou alguém acredita que os ingressos dos jogos da Copa do Mundo e das principais modalidades das Olimpíadas serão acessíveis ao “povão”?

Mas tem uma pequena, muito pequena, parcela da população que irá se beneficiar com esses eventos. A começar, pelo quem sabe “ex” ou futuro presidente Lula, que com certeza, fará tudo para voltar às mordomias e viagens inerentes ao cargo em 2014. Afinal, é mais uma “façanha” para o presidente se vangloriar, afinal, nunca na história do Brasil, um presidente conseguiu trazer eventos tão importantes. Os políticos, que terão a partir de agora sete anos de negociatas com os empreiteiros. E os empreiteiros e as construtoras que nunca na história deste país, ganharão tanto dinheiro com as obras superfaturadas, a maioria realizada através de licitações não tão transparentes. E alguém tem dúvida quais são as construtoras que irão vencer os processos licitatórios? Se tiverem, comparem a lista dos maiores doadores das campanhas dos politicos para eleições de 2010 com a lista de empresas que vencerão as licitações para construção das obras da Copa e das Olimpíadas, qualquer semelhança, não será mera coincidência. As emissoras de televisão, que nunca na história deste país, ganharão tanto dinheiro em contrato de publicidade.

O governo diz que as Olimpíadas gerarão milhares de empregos diretos e indiretos. Não discordo, mas a construção de hospitais, escolas, casas que poderiam ser construídos com o dinheiro que será gasto para a realização das Olimpíadas também gerariam milhares de postos de trabalhos “permanentes” para médicos, enfermeiros, professores, trabalhadores da construção civil e profissionais de todas as áreas.

O “nosso” presidente sabe muito bem quais são as prioridades do país. Mas o que dar mais visibilidade a ele no cenário internacional: investir em habitação, saúde, educação, infra-estrutura em um país em que pessoas morrem sem ter acesso a um sistema de saúde decente, onde dezenas de milhares de pessoas não tem um teto onde morar, um país que tem milhões de analfabetos ou bancar projetos faraônicos, como realizar uma Copa do Mundo ou uma Olimpíadas? A resposta é fácil quando temos na presidência, um sujeito que tem um ego nunca antes visto na história deste país.

Não sou um anti-Simão Bacamarte, personagem patriota do livro Alienista de Machado de Assis, nem tão pouco sou contra competições esportivas. Mas é dificil apoiar qualquer projeto de grande vulto, em um país onde nosso dinheiro se esvai nos ralos da corrupção. É dificil acreditar na seriedade das aplicações dos recursos nesses dois mega-eventos, em um país que até hoje o Tribunal de Contas da União encontra indicios de irregularidades no orçamento do Pan Americano de 2007. Vejam abaixo um pequeno exemplo de como um gasto em um serviço simples, teve seu valor acrescido em 472 vezes:“ …despesas como o custo da implantação do sistema de credenciamento do PanAmericano de 2007, orçado originalmente em R$ 55 mil, mas que acabou representando uma despesa de R$ 26,7 milhões aos cofres públicos. Atente bem para esta informação do TCU: “dinheiro público”, isto é, o meu, o seu, o nosso dinheiro.

Como um governo pensa em construir megas ginásios, piscinas, estádios em um país em que 73% das escolas públicas não possuem sequer espaços para práticas desportivas? Apontam a China, como um exemplo que deu certo quando sediou as Olimpiadas, só que, ao contrário do Brasil, a China já era uma potência olimpica quando sediou o evento, já era uma potência econômica, já investia forte na prática esportivas em suas escolas, faculdades e lá, ao contrário daqui, a corrupção não está tão fortemente impregnada.

O país e principalmente o Rio de Janeiro em 2016 viverão meses de Ilha da Fantasia, transportes de qualidade, ruas limpas, sem mendigos, Exército nas ruas. As nossas autoridades fazendo pacto de boa vizinhança com os bandidos, traficantes, para que estes deem um tempo em suas atividades ou migrem suas ações para lugares mais distantes. Ou alguém acredita que em 6 anos, todos esses problemas serão resolvidos?

Que venham a Copa do Mundo e as Olimpiadas. Dos camarotes luxuosos para o Lula, políticos, empreiteiros, chefe de tráfico de drogas. Traficantes, sim, ou você acha que no “pacto de paz olimpico”, entre as concessões das autoridades, não estarão incluídos camarotes paras aqueles assistirem aos principais eventos. Quanto ao restante do povo é melhor comprar logo a televisão de 32 polegadas, talvez até começar a Copa, você já tenha quitado as não-sei quantas prestações.

 

O Formigueiro

Friday, October 2nd, 2009

 

Todos os dias aquele homem passava algumas horas observando um formigueiro em seu quintal. Nesta observação não agiu de forma normal, aniquilando aquela colônia. Também não interferiu nos costumes e procedimentos daqueles insetos. Apenas os observava, verificando o seu processo de civilização, o trabalho, e a forma como aquele povo levava sua vida. Tomou ciência das mais diversas atividades exercidas pelas operárias, pelos guardas do formigueiro e, vez por outra, um ou outro vislumbre da rainha que não saía da colônia, mas apenas surgia em um dos acessos daquele mundo subterrâneo.
De tanto observar, foi também observado. E alguns guardiões foram falar com a rainha a respeito dele. E ouviram dela que aquele ser, ao que tudo indicava, era eterno. Era dono de toda a terra conhecida. Inclusive dos próprios formigueiros. Avisou aos guardas que jamais o atacassem, tendo-se em vista que era muito poderoso. Em questão de segundos poderia destruir com o seu poder não só ela e os guardiões, mas toda a colônia. Disse que aquele ser era todo poderoso e que detinha a capacidade de arrasar todo o povo com venenos mortais, ou colocar um produto que incendiaria tudo em volta ou até mesmo inundar o local com tanta água que todos, sem exceção, pereceriam afogados. Mandou que os guardiões informassem todo o povo a respeito do que dissera.
E o homem continuava a observar o formigueiro, sem interferir, mantendo-se a uma distância tal que não incomodasse as tarefas dos insetos. Via o entre e sai das formigas. Via as diferenças físicas entre os vários tipos. Via como saíam e como entravam por vezes encurvadas com o peso de suas cargas.
Os guardiões trataram de cumprir as ordens da rainha e comunicaram a todo o formigueiro o que ela ordenara. E assim, o convívio entre o povo e aquele homem, de seu ponto de observação, era pacífico e tranqüilo.
Entretanto, começaram a entender que aquele ser, tido como todo poderoso, em nenhum momento, se imiscuíra nos assuntos da colônia e nem mesmo dos habitantes. Nem mesmo quando algumas formigas comeram em excesso, motivadas pela gula. Ou mesmo quando dissensões surgiam, resultando em brigas. Ou quando uma ou outra se recusava a cumprir suas tarefas. A presença constante daquele ser todo poderoso tornou-se o assunto favorito das formigas. E de tanto falarem a respeito de seus poderes, cada vez mais ampliados em função das conversas, acabaram formando um grupo coeso que se decidiu a homenagear aquele ser eterno e potente. Em uma das saídas do grupo, trouxeram para o formigueiro um graveto e nele, com suas mandíbulas, esculpiram uma tosca imitação daquele ser. A escultura foi colocada no início de um dos corredores principais.
Inicialmente apenas algumas formigas, ao passarem pelo corredor, davam um aceno de cabeça. Pouco a pouco, outras e outras começaram a venerar a imagem. Mas ainda havia muitas que não acenavam com a cabeça ao passar. E eram fortemente repreendidas pelas outras, pois estas temiam que a falta cometida ameaçasse a integridade de toda a colônia.
Surgiu não se sabe de onde e em dado momento, uma idéia fantástica: que as formigas ao morrerem, teriam outra vida, sendo que as que veneravam a imagem iriam para um formigueiro repleto de mel e as que não se curvavam iriam eternamente ser caçadas e torturadas por uma imensa quantidade de tamanduás. Nesta dicotômica situação criada, não fosse a imediata ação da rainha, o formigueiro teria virado um caos, com ambos os lados defendendo com patas e garras a sua idéia e seu posicionamento. A rainha estabeleceu limites no subterrâneo. De um lado as que veneravam a imagem e de outro as que não se curvavam ante aquele símbolo. O limite foi determinado por uma passagem estreita, onde guardiões se revezavam na tarefa de controlar os acessos e revistar as formigas que tentavam ultrapassar aquela fronteira.
Se de um lado este subterfúgio acalmou os ânimos, por outro lado aconteceu uma situação ainda mais embaraçosa para aquele povo.
No lado em que as formigas veneravam a imagem, a produção e a qualidade do trabalho caíram, pois passaram a dedicar mais tempo àquele culto, enquanto no outro lado ocorreu um progresso fantástico. Lá, descobriram novas formas de tornar o trabalho mais leve, desenvolveram-se novas técnicas de produção de alimentos e aquelas formigas “ímpias” conseguiram um padrão melhor de vida, com menos trabalho e mais fartura. Mas as formigas “crentes” voltaram suas costas para o progresso. Para elas era um crime contra aquele observador todo poderoso, toda aquela vida mais alegre e mais descontraída. E falavam aos quatro ventos que todo o formigueiro poderia perecer, pois aquele ser poderia, culpando toda a colônia, destruir a todas as formigas, inclusive a própria rainha e todos os fortíssimos guardiões.
Enquanto isso o homem observava que, de um lado do formigueiro os insetos saíam cautelosos e ficavam assustados quando o viam, enquanto no outro lado trabalhava-se menos e com muito mais alegria e disposição.
Um dia a rainha acordou sentindo-se mal. Os guardiões deram-lhe néctares, açúcar, água adocicada, mas ela não resistiu e faleceu. Com ela, paulatinamente, as demais formigas foram perecendo. De ambos os lados foram morrendo todas, independentemente de suas crenças. Em pouco o formigueiro ficou repleto de cadáveres e a atividade cessou.
O homem a tudo observou sem compreender. Como a atividade no formigueiro cessara, voltou para casa e foi ler o jornal.
Algumas formigas guardiãs de um formigueiro próximo, anos depois, resolveram explorar o local. Além de tantos cadáveres já ressecados, eles encontraram em um largo corredor uma tosca imagem feita de um graveto, que representava um ser humano e uma tabuleta onde se lia:

“ONIPOTENTE SER, DEUS DE TODOS OS FORMIGUEIROS.”